Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) a catarata é a principal causa de cegueira reversível do mundo. A cirurgia de catarata é um dos procedimentos oftalmológicos mais comuns e cirurgiões capacitados conseguem realizar procedimentos rápidos, minimamente invasivos e com altos índices de sucesso. Mas como em qualquer cirurgia, há riscos de infecção pós-operatória.
No Brasil, os mutirões de catarata são realizados com o objetivo de reduzir a fila de espera para a cirurgia de catarata. Porém, alguns desses eventos foram marcados por surtos de infecções oculares, entre 2015 e 2017, e em 2024 foram relatados diversos casos de endoftalmite (uma inflamação severa do interior do olho, potencialmente grave) levando à perda total da visão em muitos casos e gerando investigações sobre as causas.
Esses surtos evidenciam vulnerabilidades tanto na profilaxia antibiótica quanto no controle de esterilização, visto que mutirões envolvem um grande volume de cirurgias em um curto período, o que pode comprometer as condições ideais de assepsia e controle de infecção. Investigações apontaram falhas em protocolos de esterilização e no uso de antibióticos profiláticos, que são essenciais para evitar infecções bacterianas em larga escala em situações de atendimento em massa.
O uso de antibióticos tópicos pré e pós-operatórios, como fluoroquinolonas (moxifloxacino e levofloxacino), é amplamente recomendado para reduzir a carga bacteriana na superfície ocular. Além disso, antibióticos intracamerais, administrados diretamente no olho ao final do procedimento, têm se mostrado eficazes na redução de infecções. Um estudo publicado por ESCRS (Sociedade Europeia de Cirurgiões de Catarata e Cirurgia Refrativa) demonstrou que a administração de antibióticos intracamerais pode ser uma medida eficiente para diminuir ainda mais o risco de infecção.
O uso de antibióticos na cirurgia de catarata é um protocolo fundamental para minimizar as infecções pós-operatórias, em especial a endoftalmite. A administração profilática, seja tópica ou intracameral, tem ampla aceitação na prática clínica e embasamento em estudos científicos que comprovam sua eficácia em reduzir as taxas de infecção e melhorar a segurança cirúrgica.
Referências:
- Barry, P., et al. (2006). Prophylaxis of postoperative endophthalmitis following cataract surgery. Journal of Cataract & Refractive Surgery, 32(3), 377-385.
- ESCRS Endophthalmitis Study Group. (2007). Prophylaxis of postoperative endophthalmitis following cataract surgery: results of the ESCRS multicenter study and identification of risk factors. Journal of Cataract & Refractive Surgery, 33(6), 978-988.
- Melega MV, Alves M, Cavalcanti Lira RP, Cardoso da Silva I, Ferreira BG, Assis Filho HL, Pedreira Chaves FR, Martini AAF, Dias Freire LM, Reis RD, Leite Arieta CE. Safety and efficacy of intracameral moxifloxacin for prevention of post-cataract endophthalmitis: Randomized controlled clinical trial. J Cataract Refract Surg. 2019 Mar;45(3):343-350. doi: 10.1016/j.jcrs.2018.10.044. Epub 2019 Jan 25. PMID: 30691922.